sábado, 17 de outubro de 2009

Crônicas... de algum lugar

Um sol forte refletia nos olhos daqueles que eram ousados o suficiente para fitá-los. Era convidativo, entretanto: céus limpos e azuis como uma tintura perfeita da natureza serviam de fundo para o astro luminoso.

Parei pensando, sentado em meu quarto com um caderno em minha frente. Sempre ficava mais inspirado quando escrevia à mão. Às vezes, abria meu laptop modesto e conseguia uma inspiração que se materializava naquelas teclas. Mas nas folhas brancas de papel é que minha mente devaneava pensamentos que se solidificavam em palavras a lápis.

Onde mais eu conseguiria inspiração? Batendo em botões barulhentos na casa alheia? Em um escritório frequentado por mim nos dias úteis (pra quem essa utilidade existia é uma outra incógnita)? Ou escrevendo naquele mesmo caderno, judiado pelo cuidado despreocupado de quem vê valor não nas exigências cosméticas do homem aplicado, mas sim na elucidação do homem curioso? Foi pensando sobre isso e sobre o nome "crônica", com uma pequena ajuda filosófica de uma outra pessoa, que refleti sobre a palavra.

Atendendo à uma rotina semanal, um professor dirigiu-se a nós com um conceito diferente de algo que vi ao decorrer de minha vida. Tal exposição me era familiar em um detalhe - o enunciante afirmava que sua classificação conceitual (ou de sua área) - automaticamente considerando tudo aquilo esposto por outros, os eruditos de outras classes, como sendo errado.

Ele nos falou sobre crônicas. Desde criança, eu via curioso os títulos de livros que me pareciam portas para o infinito, o imaginativo que me trazia o suspense do inesperado. Muitos deles sustentavam a palavra "crônicas". Desde então, ao longo da minha vida, guardei essa palavra em minha mente e coração - e nunca mudou sua identidade como um conjunto de histórias que me surpreendiam e deixavam curioso.

Então fui dito que tudo aquilo não eram crônicas. Não naquela área na qual os conceitos me são passados. Um jornalista nunca deve pensar em crônicas - não dessa forma. A crônica jornalistica é mais parecida com esse texto que você lê. Li uma vez como "conversa com o leitor".

Existe algo chamado na mídia e entretenimento em geral de "a quarta parede". Essa expressão significa o rompimento da pequena realidade criada em uma ficção, como uma peça de teatro, programa de TV, filme ou texto. Um exemplo seria o personagem de um filme dizer algo como "cara, fique tranquilo, isso é um filme!" para um de seus colegas, dentro da trama. O termo vem do fato de que um cenário normalmente possui três paredes, deixando a quarta como "janela" para o público.

Pra mim, um leitor adepto de ficções, de histórias semi-reais, contos e narrativas, algo como uma quebra de realidade (a língua inglesa chama de "suspension of disbelief", ou suspensão de descrença), um obstáculo à imersão do texto me soa como algo estranho. Gosto de escrever todo o tipo de texto. É muito interessante conversar com o leitor e ter um olhar semi-literário a respeito da vida.

Mas pra mim, a palavra crônica possui um valor que vai muito além da "simples" crônica jornalística. Como um jornalista, aceito muito bem e abraço essa definição. Mas como pessoa, crônica é uma história, real ou não, um conjunto de histórias que me fazem viajar pelos cantos inexplorados da imaginação humana. Sempre vai ser.

Será isso uma crônica em si? Não me preocupo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário