quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Uma pequena mente para vários mundos

Observei, em meus andares pela cidade, alguns garotos com um novo tipo de problema. Esse problema era de difícil diagnóstico. Em especial, vi um caso singular onde tudo passou a fazer sentido pra mim, mesmo que eu sentisse pesar pelo jovem.

Vi esse garoto correr feito doido para o que ele chamava de castelo, com uma espada em punho e bravamente urrando. Na verdade nem era um garoto. Era um musculoso brutamontes com várias camadas indumentárias metálicas. Não era feito de carne nem osso. Mas tinha um esqueleto. E um cérebro.

O cérebro e as mãos que o comandavam não estavam perto dele. Pertenciam ao garoto mencionado. O grandalhão nem sabia que caminhava simplesmente porque o garoto queria. Nem mesmo cabia ao pesadamente vestido homem pensar sobre isso – para o tipo de criatura que ele era, pensamento não havia.

Mas o menino sabia de tudo. Criara o fisicamente imponente sujeito. A cada passo que o brutamontes dava, havia o consentimento do jovem. Um comandante concentrado e alheio a quaisquer distrações ao seu calculado comando.

Eles estavam ali há tempos. O grandalhão não era afetado por isso. Não era uma pessoa, era um avatar, uma representação – personificação, se preferir. Não tinha cansaço, fome, sede, necessidade de companhia ou qualquer outra banalidade humana. Era superior ao seu dono em todos esses aspectos. Mas ainda assim era controlado por ele – e ironicamente aquele que sofria não era o pesado andarilho.

O garoto não olhava ao seu redor, mas sim apenas para a brilhante tela à sua frente. Ele não pedia companhia, nem nada que seu ambiente pudesse lhe oferecer. Apenas queria aquilo que via por uma tela de vidro. Ele não tinha uma realidade: o que desejava como seu real não existia, e o que existia não queria como seu real.

A fascinação gerava uma doença, um vício. Estava ali e não deixava-o sair de seu lugar. Tudo aquilo que perdeu e perderia passou como vulto ao seu lado, esquecido e nublado por sua enferma consciência. Os pais viam. Não gostavam. Mas não tinham como cuidar. Não era um vício normal. Não era uma mania dentro do que sua mídia os apresentava.

Não era um bem traficado, nem um narcótico ilegal. Era um brinquedo. Um brinquedo regado por tecnologia – já merecedora da etiqueta “ficção científica” – e que nunca deu à nossa mente tempo de aprender a digerí-la. Essa tecnologia criava mundos tão fortes quanto e até mais aprazíveis que o nosso. E por isso sugavam aqueles que buscavam uma fuga do mundo real. Era antes um brinquedo. Agora uma segunda vida.

Eles trataram o menino. Fizeram como qualquer pai e mãe – ou a maioria deles.
E lá corria o jovem, feito doido, através do rasteiro mato do campinho, em direção ao que chamava de futebol com os amigos. Ele vinha do carro de seu pai, que o trouxera de uma clínica qualquer. Curiosamente longe de qualquer lan house.

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