segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Um passo adentro, parte 2

Pessoal, como vocês podem ver, faz meses que não atualizo o blog. Sinceras desculpas! Estou aproveitando para desejar a vocês um excelente 2010!

E toda a sexta-feira, o Crônicas de Algum Lugar será atualizado. Então semanalmente, fiquem atentos para as novas postagens!

Fiquem com a continuação do conto...


****************************

As paredes da casa refletiam dolorosamente a fraca luz da lamparina que residia na pequena mesa central. A chama dançava de forma macabra, ondulando como uma pintura viva nas paredes, chão e teto. Os relâmpagos da tempestade, ecoando pelos aposentos e corredores, interrompiam vez ou outra o movimento da luz antiquada.

O assoalho rangia sob seus pés, com os ruídos que reconheciam do momento anterior. A madeira era gasta, empoeirada e enegrecida. Os vãos entre suas tábuas levavam os olhos a fitar um abismo profundo, e pareciam sugar aqueles que observavam por muito tempo.

Com um estrondo, a porta fechou atrás dos dois visitantes. Luciane correu, surpresa, para a entrada. Tentou em vão abrir a porta que agora parecia trancada. Dunas em seguida tentou, e achou irreal aquela porta ser agora tão resistente. Confuso, chutou-a com força para arrombá-la. Como se tivesse golpeado uma parede de pedra, caiu para trás bruscamente, a perna dolorida.

- Você está bem, Dunas? - perguntou Luciane.

- Ah... sim. Sim, estou. Apenas... Droga, o que é isso? Já arrombei portas com o dobro de tamanho com um chute desses. Foi como se tivesse chutado uma parede de concreto!

- Como assim? Isso é impossível... a porta está, ou estava, caindo aos pedaços! - a repórter não acreditava no que estava acontecendo.

- Eu sabia que esse lugar era suspeito. Não sou de acreditar em misticismos, mas acho que alguém aqui está pregando uma peça de mau gosto conosco. E eu vou pedir satisfações desse comediante - Dunas olhava para o corredor à esquerda da entrada, que devido à escuridão, não tinha um fim visível.

- Bom, vamos procurar o morador daqui. Comediante ou não, ele deve estar em algum lugar. E em todo caso, preciso falar com ele.

O detetive levantou-se, limpando a poeira de seu sobretudo. Ficou surpreso como aquele lugar sujo e envelhecido poderia ser lar de alguém, além de ratos e baratas. Ao tatear seu casaco, seu receio tornou-se um súbito medo.

- Minha arma! Onde está minha arma?

O Colt Python que o Lince utilizava desde sua época na força policial não estava mais embaixo do seu sobretudo. Olhou para o chão. Havia um vão entre as tábuas do piso, maior que os outros. Um buraco do tamanho de sua arma.

Checou com atenção a fresta. Um fraco, mas distinto brilho metálico era visível abaixo do piso. Julgando pela distância, o solo parecia mais distante do que deveria ser. Ele nunca conseguiria alcançar com seus braços. Apenas se conseguisse descer até a arma, poderia pegá-la. "Vou falar com esse Thomas Hendrick. Quando sairmos e descobrirmos que brincadeira ele está fazendo conosco, pegarei minha arma de volta", pensou.

Luciane, que estava tão assustada quanto o detetive, ou até mais, indagou.

- Você está desarmado? Como faremos agora? Não acha arriscado continuarmos?

- Não se preocupe, Srta. Balca. Durante meu tempo na ativa, foram poucas as vezes onde se fez necessário o uso de minha arma. A maior parte das situações eram resolvidas de forma direta e manual, se você me entende.

A jornalista entendia. Dunas era um homem de meia-idade, na casa dos quarenta anos, mas muito bem constituído. Sua altura impressionante e porte físico bem trabalhado mostrava um agente muito capaz de defender-se contra a maioria das ameaças, com nada mais do que seus punhos. Surpreendia-a o fato de aquela porta ter resistido a um chute tão poderoso dele.

Seguiram para o corredor a oeste, que abria como um braço esquerdo da sala principal. A luz da lamparina enfraquecia conforme eles andavam, tornando cada vez mais difícil ver. O investigador retirou uma pequena lanterna de seu bolso e ligou-a. O objeto tinha um formato longo e a lâmpada na extremidade, virada para dentro. Era perfeita para ser colocada no bolso de uma camisa. Dessa forma ficava voltada para frente sem necessidade de ser levada à mão. Repousando-a dessa maneira, a pequena luz iluminava aproximadamente dois metros à frente.

Conseguindo ver melhor, os dois observavam a arquitetura conforme chegavam ao fim do corredor. As janelas fechadas decoravam a madeira à sua esquerda, o lado externo da casa. À sua direita, passaram por uma porta, uma escada e uma segunda porta que finalizava a passagem. O extremo do caminho fechava numa parede decorada com um quadro antigo, de feição sinistra. A obra pairava, imponente, sobre um vaso contendo o que já fora uma planta viva.

- Devemos ir por onde? Tem duas portas aqui e uma escadaria que leva para o piso superior - Luciane observou, afoita, enquanto seus olhos fitavam com receio a escuridão que ficava atrás deles. Até parecia que a lamparina que uma vez iluminou a sala principal já não existia.

- Bom, francamente, não tenho certeza. Mas vimos as luzes do primeiro andar acesas antes, não foi? Vamos subir - O detetive voltou alguns passos e postou-se em frente às escadas, pronto para ir.

Os degraus rangiam como o piso, mas pareciam ser um pouco mais firmes. Pisaram no primeiro.

Um barulho muito alto, como de uma rocha sendo demolida, veio repentinamente da direção da sala de entrada. O forte vento da tempestade correu até eles como uma serpente gélida, denunciando que a porta finalmente cedera à tempestade. Ao menos era o que parecia. Dunas duvidou.

- A porta ruiu? Mas é estranho... Todo o esforço que tentei para arrombá-la não foi o suficiente! Como o vento..?

- Você não ouviu o estrondo? Não foi um fragor de madeira arrebentada, mas de pedra! Como se a porta fosse rochosa! - a repórter começava a ficar aterrorizada.

O vento seguia com força e o barulho da tempestade era agora mais alto. Um ruído metálico, como o de um objeto de ferro arrastando-se sobre o assoalho, começou a surgir. Gradativamente, como uma interferência de rádio, ia ficando cada vez mais alto. A iluminação esperada pela destruição da porta não acontecia. Já era noite?

Os dois visitantes acompanharam o vento. Com a revoada, o desconhecido rastejar ferroso que vinha da escuridão completa parecia cada vez mais próximo. O instinto de Dunas o alertou.

- Vamos, suba rápido! - gritou o ex-policial, a plenos pulmões.

O homem puxou a pequena mulher com força, subindo dois degraus por vez, rapidamente. Luciane olhou para trás e viu parte da silhueta. Uma forma vagamente humanóide, com uma indefinida forma onde estaria a cabeça, arrastava um objeto metálico de tamanho igual ao seu. Ambos eram indefiníveis naquela escuridão.

Ela virou-se, olhando para o sujeito à sua frente, que corria como um leão escadaria acima. Não sabia se aquele outro ser, criatura, ou o que fosse, estava os seguindo. Não queria saber.

Chegaram ao final das escadas, no primeiro andar. Dunas jogou a repórter para frente. O assoalho então ruiu sob seus pés. Sua pisada forçada foi demais para a velha escadaria. O detetive caiu, olhando obliquamente para a jornalista, enquanto sumia na escuridão abaixo das escadas. Boa parte dos outros degraus também ruiu, tornando impossível voltar. Os passos metálicos tinham cessado.

Luciane estava agora sozinha.

****************************

Conclui na próxima semana!